sexta-feira, 10 de abril de 2009
Azul e PretoA garota acordou com o sol entrando pela janela, um dia que muitos chamariam de perfeito: férias, sol, família. Charlotte prontamente chamaria e colocaria seu vestido azul claro, e iria ler sentada na sacada, aproveitando a luminosidade natural. Porém, hoje a família Mountbatten não aproveitaria o sol. Charlotte vestiu um conjunto preto, tomou café com a família calada, cada um perdido nos próprios pensamentos, e dirigiu-se para a lareira da sala de jantar, onde jogaram um pouco de pó de flu, pronunciando baixinho: Bromptom Road, 56. O funeral do tio Corny.
Corny não era um tio especialmente querido por ela, na verdade não podia lembrar a última vez que o tinha visto, mas seu pai estava realmente abatido com a situação, Aaron parecia incapaz de falar qualquer coisa sobre a morte do irmão. Era assustador vê-lo assim, alguém como ele, que estava sempre alegre, mesmo no funeral dos pais no ano anterior (lembrava-se dele rindo enquanto voltavam para casa).
As circunstâncias do que aconteceu ainda não eram claras para ela: sabia apenas o que o profeta divulgara e o que especulou pela forma como seu pai passou a agir desde aquele dia. Enquanto tia Penny fazia mais um de seus longos discursos desprovidos de criatividade, a garota da corvinal pode lembrar ainda as palavras exatamente como as vira no jornal da manhã de anteontem, “Trouxa assassinado” (uma manchete simplista para um caso considerado de pouca importância, merecendo o canto baixo de uma página quase no fim do jornal):
“Foi encontrado morto na noite passada o trouxa Corny Mountbatten, irmão de Aaron Mountbatten, dono da loja de produtos para quadribol Broombatten. Os aurores admitem que a causa da morte foi um feitiço, mas não chegaram a conclusões mais exatas.”
Enquanto Samuel completa suas exclamações eufóricas sobre o caráter infalível do irmão (nada verdadeiras), Aaron começa a se levantar. Charlotte encolhe-se para que ele possa passar e segura sua mão por alguns instantes, apenas o suficiente para que ele sentisse alguma presença ao seu redor, estava frio.
Ele começa seu discurso contando a infância que passou com seus irmãos, como a família se afastou, como foi mudando ao longo dos anos em que jamais se falavam. Finalmente, lembra de como recebera uma ligação de Corny, como esse lhe pedira para que o visitasse, dizendo que estava com problemas. Pela primeira vez desde o início da cerimônia, todos parecem prestar atenção.
Conta como o irmão o convidou para jantar com ele e sua esposa, dizendo que o filho deles já estava dormindo, como pediu dinheiro, como estava prestes a ceder quando ouviram a campainha.
Corny foi ver quem era, seguiu-se um longo silêncio até que ele e a cunhada resolvem ir ver se está tudo bem. Aaron vai primeiro e encontra o irmão já morto, sem qualquer sinal de ataque.
Após contar a história como se fosse uma notícia qualquer que ouviu no rádio durante o almoço e não algo que se passara com ele há poucos dias, volta ao seu lugar, onde permanece calado até o fim do funeral.
Charlotte não vê mudança alguma no humor do pai naquele dia, que andava como não mais que uma sombra pela casa.
No dia seguinte, assim como durante todo o resto do verão, Aaron acorda completamente entusiasmado, com seu jeito vivo de sempre. Pode-se dizer que a questão morte do irmão desapareceu de pauta na mente dele, mas não na da filha, menos ainda com essa estranha mudança.
- Relembrado pelos
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