sexta-feira, 27 de março de 2009

Ressaca



Aquela noite já se estendia mais do que ele gostaria. Bethany não parava de falar e Dolores se juntara a eles depois de quarenta minutos (assim que chegou disse algo ao ouvido de Bethany, causando nela um sorriso de satisfação; não deixou dúvidas: atrasou-se fazendo algo a pedido da outra, e teve sucesso). Como sempre, a gordinha ria de tudo o que a garota popular dizia – na verdade, talvez ela achasse o papel de parede engraçado - e fazia todas as suas vontades, Erikler às vezes se perguntava se ela era abobada só por personalidade ou se realmente tinha algum problema, mas não suportava olhar para ela tempo o suficiente para confirmar qualquer resposta.
Foram finalmente para a mesa de jantar, Erikler senta-se entre seu pai (que ocupava a cabeceira) e sua mãe. À direita dessa está Bethany, ladeada por Claire. Do lado esquerdo de Terence está a senhora Stengard, ficando logo em frente ao garoto, que observa com o canto do olho o senhor Malfoy sentar-se ao lado dela e logo em seguida Lucius. O amigo parecia tão impaciente quanto ele.
Os garçons servem os pratos e copos com a dignidade esperada de tal banquete e ele come em silêncio. As duas personagens sombrias à sua frente conversavam com seu pai em voz baixa, e por mais que prestasse atenção, Erikler pegava apenas algumas palavras na conversa, que anotava mentalmente com muito cuidado. “será difícil” “Lorde” “melhor” “tolo”.
Para quem observava, os três pareciam estar tendo uma conversa perfeitamente amigável, sorriam e moviam as mãos graciosamente, entretanto, Erikler sentia que os ânimos começavam a alterar-se entre eles, falavam cada vez mais rápido sem jamais mudar o volume, deixando o jovem confuso. “não vai” “as ordens” “sabe?”.
Após um último sussurro de Malfoy que parece impossível que o próprio Terence tenha ouvido (mas que pela sua expressão ele ouviu e muito bem), o pai de Erikler torna-se completamente branco e, dizendo aos próximos:
- Perdoem, acho que vou me retirar.
Levanta-se. Em seguida, acontece aquilo que Erikler nunca imaginou que veria: uma mulher confrontando diretamente seu pai, nunca vira nem mesmo a mãe ter tal coragem. A senhora Stengard levantara-se também e, tão rápido que por pouco ele acompanha seus movimentos, segura o pulso direito de Terence, impedindo-o de sair.
- Ele não é você Sakai.
Por alguns instantes, quando o pai agarra a mão da mulher, livrando o próprio braço com uma expressão de ódio profundo, Erikler tem a impressão de que ele esmagaria os ossos dela até virarem pó (provavelmente, ela pensa a mesma coisa, pois por seus olhos passa uma sombra de dor e medo e ela tenta livrar-se do aperto forte do homem), mas ele apenas afasta a mão dela, que cai mole ao lado do corpo. O Sr. Malfoy observa tudo impassivamente, traído em sua preocupação apenas por uma ruga no centro da testa.
Erikler não sabe se deve ou não seguir o pai. Parece que nenhum dos outros convidados percebeu o ocorrido, todos continuavam comendo tranqüilamente e os garçons não pararam de servir nem um único instante. Ele não tem a menor idéia do que fazer até que Mary encosta levemente em seu joelho; volta a atenção para ela.
- Siga-o.
A voz dela não era doce como normalmente quando se tratava do filho, mas imperiosa. Ele levanta-se quase automaticamente, fazendo um sinal para Bethany – que assim que o viu de pé preparou-se para ir também – de que ficasse.
O garoto tinha a impressão de que essa noite todos estavam escondendo algo dele. “Ele não é você Sakai”, aquela frase continuava a repetir-se em sua mente, não tinha dúvidas de que era a si que se referiam.
Enquanto segue o pai, percebe pelo canto do olho que mais alguém saía da mesa, era Lucius. Como sua mãe não faz nenhum movimento para impedi-lo, entende que ele deve ir também. Então isso tinha mesmo a ver com aquilo que ele o entregaria? O objeto que o Lorde quer que ele guarde era o centro daquela discussão? Por que justamente ele, que nunca sequer vira o Lorde pessoalmente, seria o protetor de algo tão importante e, pelo visto, perigoso?
Passando a mesma porta que o pai seguira, pode vê-lo entrar à esquerda ao final do longo corredor. Difícil lembrar que quarto era aquele... O casarão tinha mais de cem quartos que Erikler desconhecia, alguns por que estavam sempre trancados; outros por que ele nunca chegou a passar pelo corredor em que se localizavam; outros ainda, por que simplesmente não tinha interesse em ficar abrindo todas as portas da mansão a não ser que esperasse encontrar algo que valesse a pena. Agora, esse quarto parecia valer a pena.
Abre a porta apenas para entrar em uma saleta completamente vazia, o lugar não tinha qualquer tipo de objeto, móvel ou decoração, nem mesmo uma janela. Da saleta saía um corredor estreitíssimo, tanto que se não fosse pelo fato de a única fonte de luz da sala (um lumos deixado flutuando no ar pelo pai) estar posicionada bem em frente à entrada ele talvez não a tivesse percebido.
Assim que o filho fecha a porta, Terence surge na saleta, trazendo um objeto em mãos, que obviamente fora buscar no corredor estreito. Ele aproxima-se do outro, ao mesmo tempo em que Lucius entra também e fecha cuidadosamente a porta atrás de si; Erikler se assusta e afasta-se um pouco para poder enxergar os dois ao mesmo tempo, esperando alguma reação. Mesmo vindo de pessoas em quem ele confiava, a situação parecia sombria.
Terence está agora de costas para a luz, e abre lentamente o embrulho que tinha em mãos, deixa cair no chão um pedaço pequeno de seda fina, revelando uma caixinha em formato retangular; Lucius tira do bolso uma chave e abre a caixinha, revelando um livro pequeno e fino de capa dura preta, que entrega a Erikler.
- Bom, você já sabe, é só esconder. Ele não quer que ninguém veja isso ainda, então nada de falar pra mamãe ou pra namorada.
Lucius abre um sorriso que chega a parecer infantil e aproxima-se para falar ao outro sem que o pai desse ouça.- Um conselho de amigo, não abra o livro, às vezes não dá pra confiar nem em nós mesmos.


---- OFF POST ----
Primeiramente, agradecer o Expresso Hogwarts por ter nos anunciado :) E pedir desculpa pelas demoras nas postagens, mas bem, nós somos 3 vestibulandas e uma universitária, o tempo anda escasso por aqui. Mas o blog não está de jeito nenhum abandonado, e mesmo sem ter dia fixo para postagens, nós trocamos diversos e-mails sobre ele durante a semana.
E também para deixar um presente de nós para nós mesmos de páscoa!


Muitos chocolates pra todo mundo,
Liv Veland. ;)

- Relembrado pelos Estudantes |