segunda-feira, 2 de março de 2009
Inconveniências - Final
Os longos cabelos castanhos mal encostavam as costas da garota e ela já virava de lado novamente para olhar-se no espelho em outro ângulo. O vestido novo que ganhara da tia era um tanto esquisito, parecia fofo demais na região do busto e nas mangas estilo princesa, enquanto um grosso laço o apertava na barriga e caia baixo até altura do joelho, ainda que tivesse tecido de sobra para fazer um vestido rodado. Era de um tom verde-escuro, enquanto a faixa em sua barriga era um marrom, da cor de um tronco de carvalho.
Ainda que curioso, era um belo vestido; Olivie só não entendia porque tinha que vestir-se dessa forma para jantar na própria casa. Calçou as velhas sapatilhas marrons esperando que a tia não fosse implicar com o fato de estarem um tanto gastas, e aproximou-se do espelho do maquiador, apoiando as mãos sobre o móvel e inclinando-se para frente para examinar seu próprio rosto. Suas olheiras, como de costume, estavam em seu rosto, um pouco mais fundas desde a noite passada; recebera aquela carta estranha de seu pai na tarde anterior, evento que não a deixara fechar os olhos a noite inteira e nem a deixou prestar atenção ao material que comprara naquela tarde com Ivan. Cedo ou tarde, precisaria falar com sua tia sobre o assunto, ainda que não a tivesse em grande apreço.
Duas batidas fracas na porta a fizeram desviar a atenção de seus próprios olhos. Uma coisa que a sonserina aprendera a identificar era os diferentes modos como cada ser em sua casa batia na sua porta (para entender o nível de ócio da garota enquanto não se encontrava no ano letivo); sua tia tinha uma mão ossuda e pequena como a sua, entretanto sua batida era forte e rápida. Seu primo, costumava dar três batidinhas leves, que sempre vinham acompanhadas de seu nome sendo chamado. Já os elfos domésticos, parecia se tratar de uma batida forte – ou melhor, esforçada – embora fosse abafada e pouco ruidosa. No caso, era a batida de um dos elfos que acabara de ouvir.
- Avise a minha tinha que já estou descendo. – Ela respondeu às batidas em voz alta, para que a criaturinha atrás da porta pudesse ouvir. Esperou ouvir os passos leves se afastarem da porta para só então descer as escadarias para a sala de jantar.
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O jantar havia sido silencioso e agonizante para a sonserina. Ela batia os dedos impaciente na mesa enquanto os elfos traziam o chá, precisava falar com a tia e logo.
- Irei a uma festa na casa dos Sakai hoje, Olivie. – A tia falou por fim, uma das poucas frases que dissera desde que a garota havia chegado ao aposento. – Gostaria que me acompanhasse, sim? Aproveite que já está vestida.
Olivie deixou o queixo cair; um evento na casa de Erikler, sendo sua tia uma convidada. Começou a gaguejar, não queria ir de jeito nenhum. Nada contra os Sakai, mas tinha assuntos mais importantes para focar-se no momento... Só que para esses assuntos serem esclarecidos, precisava da tia em casa (Além do que, estava suficientemente espantada com o fato de a tia conhecer a família de seu amigo e colega de casa).
Ao lado da jovem Veland, dois olhos negros a olhavam de canto, com as mãos entrelaçadas na frente do rosto. Ivan parecia pensativo, mas ainda que não soubesse nada a respeito do que preocupava a sonserina, sabia que existia algo que a preocupava, e isso era suficiente. Quaisquer que fossem suas razões, ela não gostaria de ir, e ele a ajudaria com isso.
- Na verdade, mãe, Liv ficou de me ajudar a catalogar alguns exemplares novos. – Ivan começou, mais seguro na própria mentira do que Olivie jamais havia visto. - Aquela série daquela escritora irlandesa que anda fazendo sucesso.
Lorrehein o encarou com os dois olhos bem abertos, ainda que fosse sua mãe, era difícil até mesmo para ela dizer quando o ex-corvinal mentia; era sua arte, aliada ao entendimento de História da Magia.
- Muito bem, então. Mandarem lembranças de vocês dois. – Ela disse por fim, enquanto colocava o guardanapo sobre a mesa. – Alguém especial que quer que eu cumprimente... Olivie?
- Mande lembranças ao Erikler, é suficiente. – Ela respondeu sem encarar corvinos olhos da mulher, enquanto bebia um gole do seu chá.
Logo a tia se recolheu aos seus aposentos sem dizer uma palavra, e agora estavam somente Ivan e Olivie na sala, à exceção de uma elfa que limpava a mesa.
- Muito obrigada, mais uma vez. - Ela respondeu com um suspiro, enquanto se levantava. – Estou lhe devendo uma série de favores.
- Eu vou saber cobrar na hora certa. – O primo respondeu com um sorriso. – Você parece cansada, foi uma longa tarde. Por que não vai dormir mais cedo?
- Eu vou sim, só preciso dar uma palavrinha com sua mãe um instante. – Olivie, ao contrário do primo, era péssima mentirosa, e seu nervosismo estava tão visível para Ivan quanto os olhos azulados que ele via a sua frente. Após um tempo, em que ele encarava ela, esperando que dissesse algo mais, a moça retirou-se com um simples “com licença”, enquanto mexia ansiosa em uma mecha de cabelo. Subiu apressadamente os degraus sem dar muita importância à impressão que causaria aos elfos que passavam pelo local.
Ao chegar à porta da tia, no final do mesmo corredor onde ficava seu quarto, respirou fundo antes de dar duas batidas calmas na madeira (acaso avaliasse sua própria batida, teria somente uma palavra para ela: apavorada). Adentrou logo em seguida, deparando-se com a tia sentada defronte ao seu maquiador, enquanto colocava algumas jóias para o evento.
- Sim, Olivie?
A garota desencorajou ao ouvir a voz da tia, mas entendeu que seu desconforto perto dela era somente um capricho perto da situação a que deveria tratar. Precisaria ser forte, ao menos naquele momento. Tirou a carta que ocultara debaixo da faixa do vestido durante o jantar.
- Recebi essa carta ontem à tarde. É de seu irmão. – Ela fez questão de frisar.
Lorrehein olhou-a curiosa, apertando os olhos em uma expressão que Olivie não saberia interpretar. – Então, o que dizia a carta? Leia-a para mim, querida.
A morena ainda estava um pouco receosa, mas manteve seu olhar firme nos olhos da tia, juntos à expressão indolente. Desdobrando o papel da carta, começou com a voz mais estável que conseguiu.
- “Olivie, ainda que não saiba meu paradeiro, tenha certeza que estou em um lugar muito mais seguro do que a sua própria Hogwarts; estou finalmente colocando em prática alguns anos de estudo sobre você sabe o quê. Nos falaremos em breve, mandarei alguém para entrar em contato com você quando chegar a hora. S. V.”
Lorrehein sorriu discretamente. – Então, qual o problema, Olivie? – Ela perguntou com um tom de puro cinismo.
Olivie não sabia onde estava seu pai, mas essa carta a fizera ter uma idéia de com quem estaria. Pela banalidade do cotidiano da tia, duvidava que ela estivesse envolvida com aquilo, mas ainda assim precisava se mostrar sem opiniões a respeito do assunto... Antes prevenir do que remediar, afinal.
- Só quero saber se andou se correspondendo com meu pai, tia Lorrehein. Digo, eu não mandei nenhuma carta a ele informando onde eu estava, e nem poderia, pois eu mesma não saberia endereçar à coruja. – Ela sorriu brevemente, um sorriso tão falso quanto o que a mulher a havia lançado minutos antes. – Só para ter certeza, não é? Pelo que os jornais andam dizendo, são tempos perigosos.
A mulher pausou um minuto, parecia surpresa com a sagacidade da garota, e ao mesmo tempo desconfiada de sua reação.
- Creio ter mencionado, talvez, que pegaria sua guarda, quando fui visitá-lo em Kerker. – Ela respondeu, por fim. – Era só isso, querida?
- Só, tia Lorrehein. Boa noite. – E virando os calcanhares, saiu do aposento fechando a porta atrás de si.
Lorrehein ficou um tempo pensativa, olhando fixamente para a porta no espelho, enquanto alisava o rosto. Decidiu responder à carta, já que a sobrinha não o fizera; puxou um pergaminho e tirou a pena do tinteiro, começando a rabiscar uma caligrafia fina. Ao dobrar a manga para que não borrasse o papel, era possível notar uma espécie de tatuagem em seu braço, que poucos entenderiam o significado.
Aquela marca se tornaria tão inconveniente para Olivie quanto sua própria astúcia se tornaria para Lorrehein.
- Relembrado pelos
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