quinta-feira, 12 de março de 2009
Festa
Mais uma vez a mansão Sakai dava uma daquelas festas. Não, festa definitivamente não era a melhor maneira de se referir àquilo, ao menos não de acordo com Erikler. O certo seria “reuniões irritantes em que se deve ficar sempre em pé conversando sobre chatices e sorrindo, lembrar do nome de todo mundo e agir como se fossem especiais” (felizmente, desde que esquecera a Sra Flinch, o rapaz ganhou uma listinha, mas claro que ninguém podia vê-lo consultá-la); a definição de Terence já seria “mostrar a eles o quanto estamos honrados com suas presenças”, mas claro que o filho do milionário não se sentia nem um pouco honrado em ter em casa aquele bando de urubus.
Enquanto Erikler recebia polidamente cada um dos convivas que ia chegando, lembrava de como fora convencido a estar ali.
Na maioria dessas reuniões, que aconteciam mais ou menos duas vezes por semana, Erikler dava um jeito de ir para a casa de algum amigo ou da namorada. Ontem, porém, quando o pai anunciou durante o café da manhã que Erikler estaria presente à noite mesmo que sob a forma de um cadáver, a postura de Terence não era a sua usual: por alguma razão o movimento tenso das mãos do pai combinado com uma expressão ainda mais séria que o comum para ele (é incrível, mas aconteceu) deixaram claro que a ameaça seria cumprida, tão claro que mesmo Mary, que sempre intercedia em favor do filho, permaneceu em silêncio até que esse concordasse em fazer parte daquela palhaçada.
Afinal, o que essa noite poderia ter de tão especial?
Parecia que todos já haviam entrado, Erikler procura a figura do pai em meio àquela multidão na vasta sala de estar: encontra-o no canto oeste conversando com uma mulher estranha de cabelos negros presos em um coque. Consulta a lista por um instante: Lorrehein Stengard. Não lembrava de tê-la cumprimentado. Bom, não lembrava de três quartos das pessoas que cumprimentara hoje.
Distraído, mal percebe um senhor loiro passar e olhá-lo de cima a baixo com uma dessas caras de nojo que somente os velhos sabem fazer quando olham para aquilo que já perderam e querem sentir que ainda podem fingir alguma superioridade.
Atrás dele, entra um jovem de uns dois anos mais que Erikler, obviamente filho do senhor carrancudo, que o acorda de seus pensamentos tocando-o no ombro. Saltando para o lado e virando-se, percebe que a mão era de um amigo e pela primeira vez naquele dia sorri genuinamente.
- Lucius, o que você ta fazendo aqui? Espera um pouco.
Faz um sinal para um garoto próximo, o moleque que levava os casacos.
- Ei, cuide aqui pra mim um pouco. É só sorrir e não abrir a boca que ninguém vai notar.
Com um sinal para que o amigo o seguisse, atravessa o salão em direção ao jardim japonês que Terence mantinha nos fundos da casa, procurando não passar pelo campo de visão do pai. No caminho, pega um drink (não tem certeza do que é, apenas que é colorido e borbulhante e tem uma fatia de laranja na borda do copo) de uma bandeja que passava em direção a duas garotas: ele é o dono da festa, elas podem esperar.
Jardim é uma forma bem humilde de chamá-lo, o que o pai de Erikler mantinha no terreno da mansão era do tamanho de uma verdadeira floresta, porém completamente planejada para ter todos os tipos de belezas “naturais” que se pudesse imaginar. Os dois passam por um rio que corria em direção a uma miniqueda d’água sobre pedras preciosas observando entediados os peixes raros e se dirigem a um pequeno abrigo mais adiante, o mesmo em que o pai recebia os parentes japoneses para uma cerimônia do chá no estilo mais tradicional.
Como os parentes não apareceriam por um tempo, Mary havia colocado ali um banco de madeira artesanal. Erikler senta-se da forma mais esparramada possível, grato por não estar mais de pé (ficara assim por pelo menos quatro horas já), toma um gole do drink apenas para descobrir que era extremamente ácido e deixá-lo em um cantinho; Lucius fica em pé à sua frente, com as mãos no bolso, observando o colega falar.
- Então, alguma novidade? Isso aqui tá muito chato... O papai tá cada vez mais esquisito, tá agindo como se estivesse com o pé na cova e eu devesse “administrar a fortuna da família”. Fala sério! Eu não tenho obrigação nenhuma com isso aqui.
Lucius ria da indignação do amigo, mas assim que esse ficou em silêncio, assume uma postura séria.
- Eu não vim aqui para brincar Erikler. Ele tem uma missão para você. Parece que é importante, se fizer tudo direito, talvez ele te aceite entre a gente.
Erikler arruma-se no banco, aproximando o rosto para prestar atenção, não perderia essa oportunidade por nada.
- Bom, a primeira parte é simples, ele quer que você guarde uma coisa. Vou te entregar hoje de noite, o seu pai disse que podíamos ficar aqui até amanhã. O resto das instruções vai ser passado quando ele achar necessário.
Erikler ergue uma sobrancelha, aquilo parecia simplesmente fácil demais.
- Então... É só isso? Guardar uma coisa? E eu to dentro?
- A primeira parte é fácil, não se anime muito. Bom, o importante é não deixar ninguém saber que você está com isso e, se alguém descobrir, cortar o mal pela raiz.
Erikler sabia exatamente o que ele queria dizer, mas simplesmente afastara a idéia da mente, desde que não deixasse ninguém encontrar o que quer que fossem dar para ele, não teria que se preocupar com isso.
Quando Lucius volta sua atenção para a festa, o mais novo o acompanha e logo percebe o que chamara sua atenção: duas garotas que podiam ser descritas somente de uma forma – perfeitas - faziam sinal para que os rapazes fossem até elas. Afrodite definitivamente sorrira para Narcissa e Bethany ao construir seus corpos de beleza irrepreensível.
- Melhor deixar esse assunto para depois, vamos ter tempo.
- Claro.
Ambos sorriem com um olhar cúmplice enquanto se dirigem para as respectivas namoradas. Enroscando a mão na cintura fina, Erikler ainda pode ver o pai conversando com a mesma velha, mas agora o Senhor Malfoy havia se juntado a eles. Isso com certeza não era um bom sinal.
- Relembrado pelos Estudantes |