terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Inconveniências - Pt. 1



Era simplesmente estranho passear por uma zona trouxa que não fosse Londres. Jamais em momento algum havia passado pela cabeça da sonserina que os costumes trouxas mudassem tão abruptamente de acordo com sua região.Geralmente, durante sua estadia na Bélgica, Olivie não costumava sair muito de casa, e digamos que Waster não é lá uma zona muito atrativa; nunca em toda a sua vida imaginara como seu próprio país podia ser bonito. O clima estava temperadamente quente, mas uma brisa suave acalmava qualquer gota de suor que ousasse se formar na testa da sonserina, e o céu possuía um tom de azul que jamais havia visto em lugar algum no mundo. Um tom especial, único, parecia ser o céu exclusivo de Hasselt, que só os que passassem por lá teriam a chance de conhecer tamanha magnitude da natureza; até mesmo as nuvens, embora poucas, tinham um formato próprio naquele céu, era algo incrível.

Alguma coisa ela havia gostado por lá, ao menos. Sua nova casa pessoalmente fazia-a sentir como um pássaro enjaulado. O controle que Lorrehein exigia sobre ela angustiava Olivie, quase não a deixando respirar. Outrora, quando morava com seu pai, acostumou-se a fazer tudo sozinha na hora em que bem entendesse, pois se não fizesse, ninguém o faria por ela. E não se pode caçar um pássaro que já conheceu a liberdade para vê-lo feliz aprisionado em uma gaiola, Lorrehein deveria saber disso. Quando começou a se achar cansada da longa caminhada a procura da livraria de Ivan, a encontrou bem na sua frente. Distrair-se em pensamentos durante caminhadas cansativas sempre fora uma tática eficiente para Olivie. Ela deu uma boa olhadela por fora: Sem dúvida era a livraria de seu primo, havia uma placa de madeira que denunciava o nome “Livraria Veland” acima. Era bem pequena, com uma vitrine com diversos livros bruxos famosos a serem exibidos. Olivie estranhou aquilo, perguntaria a Ivan quando tivesse oportunidade. Foi quando sentiu um leve baque colidir com suas pernas. Olhou para baixo e viu um garoto de macacão, cerca de seis ou sete anos, que pelo visto tentara impedir sua bola de acertar a sonserina.

- Desculpa, moça. – Ele pôs-se de pé, pronto para virar-se e continuar a brincar. Olivie tocou de leve o ombro dele para que esperasse um instante. Quando o garoto parou e virou-se para ela novamente, ainda com a mão no seu ombro, ficando de cócoras para assumir uma altura similar à da criança, ela apontou para a livraria. – Você consegue ver isso?
- Ele estranhou a pergunta, olhando curioso para Olivie, mas ela simplesmente não se importou. Era só uma criança, de qualquer forma.

- É claro que consigo. – Ele começou ainda olhando a sonserina como se ela fosse maluca – É só uma casa abandonada, moça. Não tem nada aí.

E então, ele se afastou. Olivie não pode deixar de sorrir um sorriso discreto. Que truque inteligente; em momento algum subestimara Ivan, de fato. A sonserina levantou-se, e aproximou-se do vidro para ver se havia alguém lá dentro. Apesar do ambiente estar iluminado, o local parecia simplesmente vazio; checou a porta e ao perceber que a mesma estava destrancada, adentrou o local. Ligeiramente mal-arrumado, mas sem duvida em organização impecável. Os olhos azuis de Veland brilhavam de satisfação; aquele local, seu dúvida, tinha seu toque de fascínio. Estantes repletas de livros interessantíssimos a serem lidos, somente com o fato de não ter dinheiro impedindo-os de adentrar em suas tediosas férias de verão.

- Veio pelos livros? – Uma voz nos fundos da loja perguntou em tom casual e brincalhão. Saindo das sombras das prateleiras, um rapaz moreno de olhos negros sorria enquanto se aproximava com as mãos no bolso. Sua aparência, diferentemente da de
Olivie, era de um típico Veland. Robusto, alto, mas com o rosto triangular, e o negro absoluto nos olhos e cabelos. Olivie, por sua vez, ainda que mais alta que a maioria das garotas, era muito magra, e seus olhos definitivamente não eram olhos de um Veland; seus cabelos castanhos pertenciam a sua avó materna, e as íris azuis eram herança de sua mãe, Vendelle Öysten. A falecida bruxa possuía vários traços em comum com a filha, embora seu corpo fosse mais contornado e seus cabelos louros marfim. Seus sorrisos eram praticamente idênticos, assim como a expressão de Olivie quando se sentia irritada era igualzinha à dela. A sonserina sentia muito orgulho disso.

Ela sorriu o sorriso de Vendelle, mas seus olhos escondiam aquele “quê” melancólico, que não pertencia a mais ninguém senão Olivie. – Não... Eu vim por você. – Largando sua bolsa em cima da mesa, ela virou-se para encarar o primo, com seu costumeiro olhar desamocionado. – Para falar a verdade, vim lhe pedir um favor.

O garoto sentiu certa seriedade no assunto. Franziu as sobrancelhas enquanto encarava aquelas duas esferas azuladas a sua frente, como se elas pudessem lhe dizer do que se tratava aquela conversa. Por fim, baixou a cabeça, e suspirou, indicando para que a garota prosseguisse.

- Amanhã irei comprar meu material de Hogwarts em Londres. Sinceramente, preciso que você vá comigo.

A primeira impressão de Ivan foi confusa. Logo em seguida, um sorriso começou a se abrir em seu rosto, e ele entendeu do que se tratava. Não queria provocar a prima com o desconforto que a mesma sentia perto de sua mãe, entendia como a Sra. Veland podia ser superprotetora (ou neurótica, melhor dizendo). Talvez não fosse só isso, mas a partir daí já se trata de um assunto para ser revelado conforme Olivie se sentir à vontade para contar.

- Sem problemas, eu vou com você. – Ele disse por fim, e ela entendeu que esse assunto não estaria finalizado ali. Ele olhou para a estante, e tirando a mão do bolso, puxou um volume do alto dela, entitulado “Magia e Tradição – Uma análise patológica”. – Você devia ler esse. – E estendeu o livro à sonserina. – É um presente. – Ele complementou antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

A garota aceitou o livro, sorrindo timidamente em agradecimento. Puxou a bolsa para guardá-lo.- Parece que já está lendo algo. – Disse Ivan, olhando para o livro que havia dentro da bolsa da garota.- Ah, isso? É só um diário velho, nada demais. Bem, acho que eu vou indo, são quase seis horas. Obrigada e... Até o jantar.

Ele acenou, e ela saiu da loja. Ele a observou se afastar, abanando para um garotinho trouxa enquanto caminhava de volta para a mansão Veland.
Olivie, por sua vez, estava aliviada. Passar um dia longe da tia seria rejuvenescedor, de fato. Estava distraída, mal viu uma coruja passar voando sobre sua cabeça, e só notou a carta que caíra a seus pés ao pisar nela.

- Mas o quê... – Ela não conseguiu terminar a frase. O envelope tinha seu nome escrito, e ela reconhecia aquela letra mais até do que a sua própria. Seus olhos se arregalaram, e um arrepio percorreu seu pescoço. Aquela carta, qualquer que fosse seu conteúdo, não traria boas notícias.


- Relembrado pelos Estudantes |